Como agir perante cláusulas abusivas - Advogado-pt.com

Como agir perante cláusulas abusivas

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No mundo atual, onde a celebração de contratos é uma constante na nossa vida – desde o serviço de telecomunicações, ao crédito habitação, passando por seguros e subscrições diversas – é fácil sentirmo-nos esmagados pela complexidade legal e pelo volume de informação. Mas e se lhe dissermos que, por vezes, nesse emaranhado de termos e condições, se escondem armadilhas para o consumidor? As cláusulas abusivas são uma realidade insidiosa que pode comprometer os seus direitos e o seu bem-estar financeiro. Compreender como agir perante cláusulas abusivas não é apenas uma questão de curiosidade legal; é uma necessidade premente para proteger os seus interesses e garantir que as suas relações contratuais são justas e equilibradas. Este guia foi concebido para o capacitar, fornecendo-lhe o conhecimento e as ferramentas necessárias para se defender.

O Que São Cláusulas Abusivas?

Uma cláusula abusiva é, em termos simples, uma disposição contratual que cria um desequilíbrio significativo entre os direitos e obrigações das partes, em prejuízo do consumidor, contrariando as exigências da boa-fé. Elas são muitas vezes unilateralmente impostas por uma das partes (geralmente o fornecedor de bens ou serviços), que detém maior poder negocial.

Exemplos Comuns de Cláusulas Abusivas

  • Cláusulas que permitem ao fornecedor alterar unilateralmente as condições do contrato, sem aviso prévio ou possibilidade de o consumidor rescindir sem penalização.
  • Cláusulas que excluem ou limitam a responsabilidade do fornecedor por defeitos ou incumprimento, mesmo em casos de negligência grave.
  • Cláusulas que impõem penalizações desproporcionais ao consumidor em caso de incumprimento ou rescisão antecipada.
  • Cláusulas de renovação automática do contrato, sem que o consumidor seja devidamente informado com antecedência da sua possibilidade de oposição.
  • Cláusulas que exigem do consumidor o cumprimento de obrigações excessivamente onerosas ou desrazoáveis.

A legislação portuguesa, nomeadamente o Decreto-Lei n.º 446/85, de 25 de Outubro (Regime Jurídico das Cláusulas Contratuais Gerais), prevê a nulidade destas cláusulas, o que significa que, mesmo que as tenha assinado, elas podem não ter qualquer validade jurídica. O problema é que a maioria dos consumidores desconhece esta proteção.

Identificar Uma Cláusula Abusiva: Sinais de Alerta

A identificação de uma cláusula abusiva nem sempre é óbvia. Requer atenção e, por vezes, um sentido crítico aguçado. No entanto, existem alguns sinais de alerta que o podem ajudar.

Atenção à Letra Miúda e Linguagem Complexa

Muitas vezes, as cláusulas mais problemáticas encontram-se disfarçadas na “letra miúda” do contrato ou redigidas numa linguagem jurídica tão complexa que se torna quase impenetrável para o leitor comum. Se sentir que não compreende plenamente uma secção do contrato, ou que esta é propositadamente vaga, desconfie.

Sentimento de Injustiça ou Desproporção

Se, ao ler uma condição, tiver a sensação de que esta é manifestamente injusta, que lhe retira direitos fundamentais ou que coloca todas as vantagens do lado da outra parte, é um forte indício de que pode ser abusiva. Um contrato justo deve prever um equilíbrio razoável entre os direitos e deveres de ambas as partes.

Falta de Clareza e Ambiguidade

As cláusulas devem ser claras, inteligíveis e fáceis de compreender. A ambiguidade ou a falta de transparência podem ser um estratagema para induzir o consumidor em erro e, como tal, são passíveis de ser consideradas abusivas.

Como Agir Perante Cláusulas Abusivas: Os Seus Direitos e Passos a Tomar

Saber identificar é o primeiro passo, mas é crucial saber o que fazer. Não se sinta impotente; tem direitos e mecanismos para se defender.

Antes de Assinar: Prevenção é Chave

A melhor defesa é a prevenção. Leia sempre o contrato na íntegra, com calma e atenção. Não hesite em fazer perguntas e pedir esclarecimentos sobre quaisquer pontos que não compreenda. Se a outra parte se recusar a esclarecer ou pressionar para assinar rapidamente, ligue o alerta vermelho. Se tiver dúvidas significativas, procure aconselhamento. É muito mais fácil prevenir do que remediar.

Após a Assinatura: Não Está Tudo Perdido

Se já assinou um contrato e descobriu uma cláusula que considera abusiva, ainda tem opções:

  • Contacte a Empresa: Por vezes, uma simples comunicação escrita à empresa, expondo o seu ponto de vista e solicitando a alteração ou anulação da cláusula, pode resolver a situação. Mantenha registo de toda a correspondência.
  • Livro de Reclamações: Apresente uma reclamação no Livro de Reclamações (físico ou online). Esta é uma ferramenta poderosa que as empresas tendem a levar a sério, pois as queixas são monitorizadas pelas autoridades competentes.
  • Associações de Defesa do Consumidor: Associações como a DECO Proteste oferecem apoio jurídico e aconselhamento aos consumidores, podendo intervir em seu nome e mediar conflitos.
  • Mediação e Arbitragem: Muitos setores dispõem de centros de arbitragem de conflitos de consumo, que oferecem uma via mais rápida e económica do que os tribunais para resolver litígios. Informe-se sobre a existência de um centro de arbitragem aplicável ao seu caso.
  • Aconselhamento Jurídico: Em casos mais complexos, ou se as tentativas anteriores não tiverem sucesso, procurar um advogado é fundamental. Um especialista poderá analisar o seu contrato, avaliar a nulidade da cláusula e representá-lo judicialmente, se necessário. A lei prevê que as cláusulas abusivas são nulas e de nenhum efeito, o que significa que a sua aplicação pode ser impedida ou revertida.

Não se deixe intimidar pela complexidade do vocabulário legal ou pelo tamanho dos contratos. Os seus direitos como consumidor estão protegidos pela lei portuguesa, e existem recursos e profissionais disponíveis para o ajudar a defendê-los. A informação é o seu maior aliado. Ao estar informado e ao saber como agir perante cláusulas abusivas, transforma-se de uma potencial vítima em um consumidor consciente e protegido.

Lembre-se: um contrato é um compromisso sério, mas não deve ser uma armadilha. A sua segurança e tranquilidade vêm em primeiro lugar.

Solicite a análise do contrato antes de assinar.

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