Negligência médica: quando existe responsabilidade - Advogado-pt.com

Negligência médica: quando existe responsabilidade

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A confiança que depositamos nos profissionais de saúde é um pilar fundamental da nossa sociedade. Esperamos cuidado, competência e dedicação quando a nossa saúde, ou a dos nossos entes queridos, está em jogo. No entanto, o que acontece quando essa confiança é quebrada? E se um erro médico resultar em dano? Esta é uma questão delicada, mas crucial, que muitos pacientes em Portugal enfrentam. Compreender a “negligência médica: quando existe responsabilidade” não é apenas uma questão de justiça individual, é um direito. Para os pacientes lesados, conhecer os seus direitos e as vias legais disponíveis é o primeiro passo para procurar reparação e garantir que tais situações sejam investigadas adequadamente. Não se sinta sozinho; a lei oferece caminhos para aqueles que foram prejudicados por uma falha no dever de cuidado.

O Que é Negligência Médica?

A negligência médica, em termos simples, ocorre quando um profissional de saúde (médico, enfermeiro, técnico) falha em prestar o cuidado que seria razoavelmente esperado de um profissional competente na mesma especialidade e em circunstâncias semelhantes, e essa falha causa dano ao paciente. Não se trata de um mau resultado inevitável de um tratamento, ou de uma complicação rara conhecida. Trata-se de um desvio do padrão de cuidado que a comunidade médica estabelece como aceitável e seguro.

Para que se configure negligência, não basta que o tratamento não tenha tido o desfecho desejado. É fundamental demonstrar que houve uma falha no dever de cuidado – seja por imprudência (ação precipitada), imperícia (falta de conhecimento ou técnica) ou negligência (omissão ou desatenção) – e que essa falha foi a causa direta do dano sofrido pelo paciente. Em Portugal, a responsabilidade por negligência médica pode recair sobre o profissional individual, a instituição de saúde (hospital, clínica) ou ambos, dependendo das circunstâncias.

Elementos Essenciais para Configurar a Responsabilidade

Para que um caso de negligência médica resulte em responsabilidade e, consequentemente, em direito a indemnização, é necessário provar a existência de três elementos cumulativos. Sem um deles, a pretensão pode não ter sucesso.

1. A Omissão ou Ação Negligente (Culpa)

Este é o elemento que prova que houve uma falha no dever de cuidado por parte do profissional de saúde. A culpa pode manifestar-se de diversas formas:

  • Negligência: Quando o profissional falha em fazer algo que deveria ter feito, ou o faz de forma descuidada. Ex: não solicitar exames cruciais, não monitorizar um paciente adequadamente, esquecer material cirúrgico no corpo do paciente.
  • Imprudência: Quando o profissional age de forma precipitada ou sem a devida cautela. Ex: realizar um procedimento sem a preparação adequada ou sem considerar riscos óbvios.
  • Imperícia: Quando o profissional carece de conhecimento técnico ou habilidade para realizar uma determinada tarefa, e, ainda assim, a executa, causando dano. Ex: um cirurgião a realizar uma cirurgia fora da sua área de especialidade e com resultados desastrosos.

É importante realçar que a avaliação da culpa é feita com base no padrão do “bom profissional” na mesma especialidade, e não na perfeição absoluta.

2. O Dano

Não há responsabilidade sem dano. O paciente deve ter sofrido um prejuízo real, concreto e mensurável devido à alegada negligência. Este dano pode ser de várias naturezas:

  • Danos Físicos: Agravamento da condição de saúde, lesões permanentes, necessidade de cirurgias adicionais, incapacidade.
  • Danos Psicológicos/Morais: Sofrimento, dor, angústia, ansiedade, depressão resultantes do evento.
  • Danos Patrimoniais: Despesas médicas adicionais, perda de rendimentos (presentes e futuros), necessidade de adaptações na casa ou de assistência.

A quantificação do dano é complexa e exige uma avaliação cuidadosa, muitas vezes com o auxílio de peritos médicos e económicos.

3. O Nexo de Causalidade

Este é, por vezes, o elemento mais difícil de provar. O nexo de causalidade estabelece a ligação direta e indissociável entre a ação ou omissão negligente do profissional de saúde e o dano sofrido pelo paciente. Em outras palavras, é preciso provar que o dano não teria ocorrido “se não fosse” pela negligência. Por exemplo, se um paciente já tinha uma doença terminal e um erro médico não alterou significativamente o curso da doença, o nexo de causalidade pode ser difícil de estabelecer.

A prova do nexo de causalidade frequentemente exige o parecer de outros especialistas médicos que possam atestar que a conduta do profissional se desviou do padrão e que esse desvio foi a causa do prejuízo.

O Que Fazer se Suspeita de Negligência? (Conselhos Práticos)

Se desconfia que você ou um familiar foi vítima de negligência médica, os passos iniciais são cruciais para proteger os seus direitos.

1. Reúna Toda a Documentação

Obtenha uma cópia completa e detalhada do seu processo clínico (historial, relatórios médicos, resultados de exames, prescrições, registos de enfermagem). É seu direito aceder a estes documentos. Quanto mais completa for a sua documentação, mais fácil será para os peritos e advogados avaliarem o seu caso.

2. Procure Aconselhamento Jurídico Especializado

A legislação sobre responsabilidade médica é complexa. É fundamental consultar um advogado com experiência comprovada nesta área. Ele poderá analisar a sua documentação, explicar-lhe os seus direitos, avaliar a viabilidade do seu caso e guiá-lo em todas as etapas do processo.

3. Considere uma Peritagem Médico-Legal

Antes de iniciar qualquer ação legal, é quase sempre indispensável obter uma avaliação independente dos factos médicos. Uma peritagem médico-legal é um relatório elaborado por um médico especialista, imparcial, que analisa o seu processo clínico, a conduta do profissional de saúde e determina se houve um desvio do padrão de cuidado, se esse desvio causou dano e qual a extensão desse dano. Este é um passo essencial para fortalecer o seu caso, servindo como prova técnica fundamental.

4. Esteja Atento aos Prazos de Prescrição

Existem prazos legais para apresentar uma queixa ou iniciar um processo judicial por negligência médica. Estes prazos variam consoante a natureza da responsabilidade (contratual ou extracontratual) e o tipo de entidade (pública ou privada). Não adiar a procura de aconselhamento é crucial para não perder a oportunidade de fazer valer os seus direitos.

A Importância da Prova

Em Portugal, o ónus da prova recai sobre o paciente. Isto significa que é o paciente que tem de provar que houve negligência e que esta causou o dano. Dada a complexidade da matéria médica, a prova técnica, nomeadamente através de peritagens médico-legais e testemunhos de especialistas, é de vital importância. Sem uma prova robusta, mesmo que o dano seja evidente, pode ser impossível estabelecer a responsabilidade e obter a devida indemnização.

Ser vítima de negligência médica é uma experiência dolorosa e confusa. Contudo, não é uma situação sem saída. A lei portuguesa prevê mecanismos para proteger os pacientes e garantir que os responsáveis sejam chamados a contas. O primeiro e mais decisivo passo para assegurar que a sua voz seja ouvida e que os seus direitos sejam respeitados passa por uma avaliação rigorosa do ocorrido.

Se suspeita que você ou um familiar foi lesado por negligência médica, não hesite em procurar ajuda especializada. Compreender a “negligência médica: quando existe responsabilidade” é o seu direito e o nosso dever é ajudá-lo a percorrê-lo. Para ter uma ideia clara da viabilidade do seu caso e das melhores abordagens, o primeiro passo é fundamental: **Pedir uma peritagem médico-legal.**

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